Ciência, gestão e colaboração: a experiência do Instituto Terra & Mar na oficina nacional do Projeto IntegraMAR
Por que conhecer o oceano ainda é um desafio no Brasil?
Você já parou para pensar em como os cientistas acompanham a saúde do oceano ao longo de toda a costa brasileira? Em um país com mais de 8 mil quilômetros de litoral, entender o que acontece nos ambientes marinhos é um grande desafio. É justamente nesse contexto que surge o Projeto IntegraMAR.
O IntegraMAR é uma rede nacional de pesquisa científica dedicada ao estudo da biodiversidade marinha brasileira. O projeto conecta pesquisadores, universidades e instituições de diferentes regiões do país para reunir e integrar informações sobre a vida marinha, permitindo compreender melhor como funcionam os ecossistemas costeiros e como eles estão mudando ao longo do tempo.
Criado no âmbito do Programa de Pesquisa em Biodiversidade (PPBio/CNPq), o IntegraMAR funciona de forma colaborativa, reunindo especialistas de diversas áreas da ciência. A coordenação geral é realizada pela Profa. Dra. Mariana Bender, da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), com co-coordenação do Dr. Guilherme O. Longo, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Esse formato em rede possibilita que pesquisadores de diferentes estados trabalhem juntos para produzir conhecimento sobre o oceano brasileiro em escala nacional.
Uma ciência organizada para gerar impacto
As atividades do projeto estão estruturadas em quatro grandes eixos:
EIXO 1 – Biodiversidade, Dinâmica e Funcionamento dos Recifes, dedicado ao registro das espécies que habitam ambientes costeiros e recifais.
EIXO 2 – Impactos Locais, Globais e Sinérgicos sobre a Biodiversidade Marinha, que investiga como o aquecimento dos oceanos, a poluição e outras pressões humanas afetam a vida marinha.
EIXO 3 – Serviços Ecossistêmicos, voltado à compreensão dos processos ecológicos que mantêm os ambientes marinhos equilibrados.
EIXO 4 – Subsídios às Ações de Gestão, Manejo e Restauração Adaptativa, que aproxima o conhecimento científico da tomada de decisão e das práticas de manejo ambiental.
Quando ciência e gestão se encontram na prática
Foi dentro desse contexto que, nos dias 25 e 26 de fevereiro, tive a oportunidade de representar o Instituto Terra & Mar em Brasília durante a “I Oficina Colaborativa com Unidades de Conservação Costeiro-Marinhas: Subsídio às Ações de Gestão, Governança e Manejo dos Recifes”, realizada no âmbito das ações do Projeto IntegraMAR.
A oficina integrou as atividades do Eixo 4 do projeto, coordenado pela Profa. Dra. Leandra R. Gonçalves, da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), dedicado a aproximar o conhecimento científico das práticas de gestão e governança ambiental, sendo esta uma das responsáveis pela condução das discussões e pela articulação entre os diferentes participantes.
O Instituto Terra & Mar foi convidado a participar da oficina em reconhecimento à sua atuação contínua na governança de áreas marinhas protegidas, ocupando há mais de dez anos uma cadeira no Conselho do Núcleo de Gestão Integrada (NGI) Alcatrazes. Essa trajetória reforça o papel da organização no diálogo entre gestão pública, ciência e sociedade civil no campo da conservação marinha.
Construindo soluções de forma colaborativa
O encontro reuniu gestores de Unidades de Conservação marinhas, pesquisadores, representantes de organizações da sociedade civil e instituições governamentais de diferentes regiões do Brasil, todos envolvidos na conservação dos ambientes recifais brasileiros.
Concebida como um espaço de diálogo e construção coletiva, a oficina buscou aproximar ciência, gestão pública e iniciativas da sociedade civil. Ao longo dos dois dias de trabalho, foram discutidos desafios comuns enfrentados pelas UCs marinhas, como o monitoramento ambiental, a pressão do turismo, a pesca, os impactos das mudanças climáticas e a necessidade de fortalecer modelos participativos de governança, com o objetivo de gerar conhecimento capaz de apoiar decisões práticas de manejo e conservação.
Desafios compartilhados ao longo da costa brasileira: o papel do Eixo 4 na transformação do conhecimento em ação
Foi dentro dessa dinâmica que se estruturaram as atividades centrais da oficina reunindo percepções de diferentes integrantes dos conselhos gestores de UCs por meio do método Delphi, uma abordagem participativa que busca organizar e sistematizar opiniões de especialistas e atores envolvidos em um determinado tema. A partir de rodadas estruturadas de diálogo e reflexão coletiva, o método permite identificar convergências, desafios e prioridades para a gestão dos territórios.
As discussões buscaram compreender como os diversos setores envolvidos nesses espaços percebem os impactos ambientais e socioambientais associados às UCs nas comunidades do entorno, além de analisar de que forma os diferentes níveis de governança influenciam a gestão dessas áreas e de seus territórios adjacentes. Ao transformar essas percepções em dados sistematizados, a iniciativa gera subsídios concretos para a gestão ambiental.
Ao longo do processo, ficou evidente que o sucesso das áreas protegidas depende não apenas da produção de conhecimento, mas também da articulação entre gestores, pesquisadores, organizações da sociedade civil e comunidades locais na construção de estratégias de manejo mais participativas e adaptativas. Organizados em grupos temáticos, os participantes compartilharam experiências locais, identificaram desafios comuns e contribuíram para a construção de propostas voltadas ao fortalecimento das ações de conservação desses ecossistemas.
O que levamos dessa experiência para o Instituto Terra & Mar
Para o Instituto Terra & Mar, a participação na oficina representou uma importante oportunidade de aproximação com gestores e pesquisadores que atuam na conservação marinha em escala nacional. Além de ampliar o diálogo institucional, o encontro trouxe novas referências e perspectivas que podem contribuir para o fortalecimento das nossas ações locais de educação ambiental, conservação e engajamento comunitário.
Mais do que um espaço técnico, a experiência em Brasília reforçou o papel fundamental das organizações da sociedade civil na conexão entre conhecimento científico e realidade territorial. Também evidenciou algo muito presente no cotidiano de quem atua na gestão costeiro-marinha no Brasil: nossas áreas de conservação formam um mosaico extremamente diverso — em contextos ecológicos, arranjos de governança e dinâmicas sociais — o que torna desafiador estabelecer políticas únicas ou soluções padronizadas. Ao mesmo tempo, é justamente essa diversidade que abre uma grande oportunidade de aprendizado coletivo. Encontros como este permitem compartilhar experiências, reconhecer desafios comuns e construir caminhos mais sensíveis às especificidades de cada território.
“By its nature, environmental governance requires collaboration.”
— Orjan Bodin (Science, 2017)
(Por sua natureza, a governança ambiental exige colaboração.)
Texto: Carla Flores
Fotos: Carla Flores
Até a próxima...
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